Protusco e Parresia (a CBB e a IBP)

Fiquei pensando sobre escrever um roteiro para esse texto. Pensei numa crônica ou uma carta, mas abortei. Posso fazer isso, sou o autor do corpo desse texto. Pensei em ter como ponto de partida um texto bíblico e eis que de um lado aparece no noticiário local um pastor que fixou cartaz na frente da Igreja Templo Batista Bíblico Salém, na cidade de Entre Rios, distrito de Porto Sauípe. Eis a placa: “Se um homem tiver relacionamento com outro homem, os dois deverão ser mortos por causa desse ato nojento. Eles serão responsáveis pela sua própria morte.” Leiam levítico 18 para perceber o contexto. O pastor Milton França concedeu entrevista e teve seus “15 minutos” de fama no mundo das celebridades instantâneas tão presentes em nosso tempo/mundo, como já abordara Andy Warhol.

De outro lado a Igreja Batista do Pinheiro aprova a aceitação de pessoas homoafetivas como membros da igreja por batismo, carta ou aclamação ou transferência.

Quando dei por mim já havia enfiado a caneta no papel e de forma prazerosa colocando-me a derramar tinta. Ao derramar tinta, pensei em continuar e esticar a conversa e então lembrei do “esticador”, o Procusto, uma personagem mítica que era salteador na floresta. Ao realizar suas ações colocava as vítimas sobre uma cama (que era curta) para posteriormente cortar as partes que excediam o tamanho da cama. Imaginem as dores das vítimas de Procusto.

Pensei em uma outra personagem, um conceito foucaultiano que transformamos em personagem: Parrésia. Essa é a expressão grega que indica a coragem de se dizer a verdade, exibir tudo, falar com franqueza. Eis a afirmação de Foucault: “Os parresiastas são os que, no limite, aceitam morrer por ter dito a verdade. Ou, mais exatamente, os parresiastas são os que empreendem dizer a verdade a um preço não determinado, que pode ir até sua própria morte.” (Foucault, O governo de si e dos outros: curso no Collège de 2010, p. 56).

Imaginemos o encontro entre essas duas personagens. Esse encontro acontece cotidianamente. O pastor que colocou o cartaz na frente da igreja, a Convenção Batista Brasileira, a Igreja Batista do Pinheiro, os homoafetivos e outras categorias mais. Nessa cotidianidade dos encontros temos o encontro entre Procusto (CBB) e a Parrésia (IBP). Nesse encontro a ação de Procusto é terrível. Ele coloca a Parrésia sobre sua cama (devidamente ajustada) para ser menor que a dimensão do corpo da suave e forte Parrésia. Feito isso, agiu e cortou suas partes!

Parrésia, não deixa de dizer o que precisa ser dito, ela não deixa de fazer o que precisa ser feito. Em Parrésia inexiste diferença entre o dizer e o fazer, e estes estão envolvidos em uma outra personagem, Dikê, a justiça. Esta não é vingativa, ao contrário é amorosa. Dikê é uma característica da Parrésia. Enquanto que o “fazer justiça” é um “cortar as partes” em Procusto, portanto uma representação da intolerância do ser humano em relação ao outro, o “fazer justiça” em Parrésia é amorosidade, o encontro daqueles que se amam  e se deixam encontrar no amor.

Igreja Batista do Pinheiro, vocês apontam/contribuem com a revolução amorosa do Cristo de Deus, esse Jesus que assumiu a Dikê sagrada e a Parrésia como dinâmica de vida. Obrigado aos parresiastas da Igreja Batista do Pinheiro. Obrigado Pastora Odja. Obrigado Pastor Wellington.

 

Everton Nery Carneiro

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