O CORAÇÃO EM PELE (QUASE OSSO)

Hoje que as cortinas do sol fremem
ante minhas retinas banhadas de passado,
e que meus pés buscam a areia para
o mergulho no insondável (ofertando ao tempo
a morte das forças);
ferro minha própria carne
como quem açoita um corcel
e seus cascos de faísca e fome;
como quem recobra o fôlego
no peito dilacerado entre as vísceras
e o corte.
neste ato de amputação,
reacendo-me entre o aço e a pedra,
e beijo a pátina lúdica das flores.
agora que o muro não mais
separa ou incita, e
que a tua voz
canta mais alto que a chuva
(célere e indômita),
encontro-me atado ao vazio
em pleno latifúndio.
desfaço minhas mantas bordadas
à mão e ao sonho, contagiado
pela placidez do vento adjacente.
sou um rumor de água
empoça na glote da história
(uma epístola engarrafada).
sou a sombra dissolvida
no sereno da flora anêmica,
desenhando a vastidão do olho
aos pés do frio.
o náufrago em terra firme
com o coração no chão.

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